Rádio Acervo

Histórias e Causos


NO REINO DA BICHARADA

Destaque cultural de EDICLAR COSTA







No Brejo chegou um Baiano
com seu carro todo quebrado
quando soube o nome do povo
ficou todo apavorado.
 
Quero consertar a carroceria
e pago a dinheiro.
Tem o grilo marceneiro 
e o canário carpinteiro
Preciso de um mecânico
que seja um bom artista.
 
Temos o coelho e o tatu
que também são motoristas.
Preciso de um pinhão
que seja um bom vaqueiro.
Temos vários e bons,
O Peba é o mais ligeiro.
 
Me ensine uma pensão 
que não seja muito cara.
O senhor vai dormir bem
no hotel do capivara..
Garoto me compre carne
que pra comer não tenho dó.
 
Aqui tem dois açougues,
do João calango e Mundim socó.
O baiano tomou a pensar...
Minha cabeça não tá com nada.
Pensei que era uma cidade,
mas, é o reino da bicharada..
 
Chegou um homem da terra;
O senhor tá com a razão.
Aqui têm mais bichos,
Vou te dar explicação.
 
O Perú é butequeiro,
O Galo é funcionário.
Codorna é lavrador,
Bode e Cocá são bancários.
 
A vaca é estudante,
Boi tungão é cambista.
O macaco é aposentado,
Anu Branco é eletricista.
 
Garrincha é construtor,
Marreca é advogado.
Carrapato, alfaiate,
O cavalo é soldado.
 
O Leão é chofer de praça,
A Onça é pedreiro.
No meio da bicharada,
O Veado é o cozinheiro.
 
Tem o porco Baé
Tem o bravo Zabelê.
Tem a família muriçoca,
Que é osso duro de roer.
 
Tem o Bugi e o Gatão,
E outro bicho arrogante.
Por ser o maior quadrúpede,
Eurípedes é o elefante.
 
Tem o belo Melete,
O que leva boa vida.
Tem no Banco do Brasil,
seu alimento, a Formiga.
Temos bichos muito mansos,
Mas, tivemos bicho tarado.
 
Até o Alcidinho Saruê,
Já quis ser até deputado.
Quem anda em linha reta,
não pensa em caracol.
Já tivemos um jacaré,
que foi juiz de futebol.
 
Aqui já teve de tudo,
sem mentira ou exagero.
Pois teve até piranha,
que foi grande sanfoneiro.
 
Tem um bicho infeliz,
que deve ser observado,
é o Sapo Cururu,
dentro do Banco do Estado.
 
Tem o Periquito e Curió,
O Pombo, a Galinha e o Camarão.
São jogadores de futebol,
sem nenhuma gozação.
 
O gatinho, o Passarinho, o pato
e duvide quem quiser.
Tem o bicho esquisito,
o feio Caburé.
 
Tem um bicho que sofre muito
que pula e é Cururu.
O chefe dos Catopês,
foi Manoel Urubu.
Os bichos tomaram conta
e não tem mais salvação.
 
Até o gerente da Caixa,
Foi o João Bisourão.
O Celino é o perigoso
não precisa fazer enredo.
 
E o Cobra Cascavel,
todo mundo tem medo.
Gente aqui não vale nada, 
Os bichos somente tem valor.
Até Paulo Preá,
Tira onda de doutor.
 
O Baiano tornou a brasar.
Não quero ser indecente,
nessa terra só tem bicho,
e com figura de gente.
 
Já estou dando no pé,
eu sinto muito horror.
Se tiver de voltar um dia,
Trago cachorro e caçador.
 
O homem da terra respondeu:
O senhor sofre um engano,
Já tivemos em nosso meio,
um famoso PORCO BAIANO.

 
* Este conteúdo literário, narrado por Ediclar Costa, figura popular e tradicional da cultura da cidade, retrata uma visão humorística da sociedade brejeira, focalizando pessoas do município, numa mistura de apelidos e críticas às suas representações floclórícas, na chamada constituição do Reino da Bicharada, que acreditem vocês, não termina por aqui. Esta bicharada, papel exclusivo de uma comparação e designação do reino animal, fora focalizada na sociedade, em meados dos anos 70.




ASSIM ERA FRANCISCO SÁ 

LUCAS DOS INFERNOS

Enoque Alves Rodrigues

Criado no seio das tradicionais famílias Prates e Sá, de onde provem o Deputado Camilo Prates e os irmãos Francisco e Alfredo Sá, respectivamente, Lucas dos Infernos, escravo que fora lá na Fazenda Brejo de Santo André, Município de Brejo das Almas, hoje Francisco Sá, depois de ter servido ambas as famílias por mais de 40 anos, vivia, finalmente, seus dias de glória. Passava a maior parte do tempo em companhia de “seu Camilinho” como era chamado carinhosamente o Deputado Camilo Prates, que como recompensa pelo muito que o velho escravo Lucas fizera por sua família, como prova de gratidão, não permitia que ele trabalhasse mais. Aonde o Dr. Camilo ia, levava seu fiel escudeiro Lucas, um preto alto, magro, de olhos esbugalhados e faces largas. O que mais o destacava dos outros serviçais era a sua presença de espirito e seu astral sempre elevado até as nuvens. Exímio contador de “causos”, brincalhão, prestimoso, a todos conquistava com seu largo sorriso. Não havia quem não gostasse de Lucas dos Infernos. Sua alegria em qualquer parte onde ele estivesse contagiava a todos. No entanto, cortava uma cana dos diabos e, nem mesmo os efeitos etílicos conseguia mudar sua personalidade. Alias foi num desses porres homéricos que ele recebeu o aditivo “dos infernos” no nome. Dizia ele em mais uma de suas histórias, essa segundo afirmava, verídica, que após se embriagar teve sonhos assustadores onde de repente se achou em meio ao inferno junto com vários asseclas de Lúcifer. Depois de ele ter passado por “poucas e boas lá nas profundas” quando os capetas iam, finalmente, fechar os portões para mantê-lo encarcerado lá para todo o sempre, ele, assim como num passe de mágica, se despertou daquele tenebroso pesadelo. Foi a partir deste dia que ele teve o seu sobrenome “dos Santos,”substituído por “dos infernos.”

Lucas nasceu na Fazenda dos pais de Francisco e Alfredo Sá em uma época em que a escravidão se achava em plena evidência no Brasil. Ricos e poderosos, porém, os pais de Francisco e Alfredo jamais foram de dispensar quaisquer maus tratos aos escravos sob suas responsabilidades. Foi por isso que mesmo depois de abolida a escravidão no Brasil, a 13 de Maio do ano de 1888, por Sua Alteza, a Princesa Isabel Cristina Micaela e mais um milhão de nomes, quase todos os escravos que serviam os pais de Francisco e Alfredo preferiram continuar com eles. Assim sendo é certo que Lucas dos Infernos embalou, em infância, os sonhos destes dois irmãos, grandes estadistas, orgulho maior do norte das Alterosas.

Servidão e lealdade. Era este o binômio sobre o qual durante toda a vida repousava as relações de Lucas dos Infernos para com seus patrões ou senhores. Tanto em Brejo de Santo André, em casa dos pais de Francisco e Alfredo, como em Montes Claros em casa do Deputado Camilo Prates ou no Brejo das Almas, em companhia deste em casa do Padre Augusto, pois muitas vezes “Seu Camilinho” o cedia para ficar uma temporada com o Padre Augusto no Brejo das Almas, várias foram ás oportunidades que o preto Lucas teve de provar aos seus senhores o quanto lhes era fiel. O orgulho que tinha em servi-los era indescritível. Por isso que ele agora em idade avançada colhia os louros que amealhou durante muitos anos de dedicação e esmero. 

Ele se levantava todos os dias lá pelas 8 horas da manhã. Depois de dar umas voltas pelo Centro do Brejo onde, entre um “causo” e outro, manguaçava  nos muitos botecos, retornava ao meio dia para almoçar. Puxava uma palha até ás 14 horas e voltava ao Centro para continuar bebericando. Ás 19 horas após passar pela velha Matriz onde se ajoelhava e rezava aos pés do cruzeiro, regressava para casa. O Padre Augusto não se incomodava por este hábito. Isso era irrelevante ou sem muita importância. Lucas não incomodava ninguém. Bastava abrir a boca para contar suas histórias e piadas para que todos caíssem na gargalhada. Isto sim, era o que mais importava. O resto não tinha peso algum. 

Naqueles tempos longínquos era prática comum ao dono da casa quando recebia visitas importantes, convidar algum de seus serviçais para contar-lhes algumas histórias ou piadas desde que desprovidas de duplo sentido ou qualquer grau pejorativo. Tais procedimentos, acreditem, retratavam o alto nível intelectual e financeiro com os quais o dono da casa era aquinhoado. 

Certa vez se encontravam na casa do Padre Augusto, no Brejo das Almas, o Dr. Honorato Alves, Camilo Prates, Alfredo Sá,  Jacinto Silveira, Antonio Ferreira, Francelino Dias,  o próprio Padre Augusto e o famoso Jornalista Mário Cassassanta que à época escrevia uma matéria para um Jornal do Rio de Janeiro sobre o Brejo das Almas. Na grande sala de estar, sentados confortavelmente em bancos de couro depois de terem se esbaldado com o angu de fubá com molho de quiabo e brotinhos de feijão de corda, que Wenceslau sabia preparar como ninguém, lá pelas tantas chamaram o negro, velho escravo “aposentado” para contar suas anedotas. Entrou todo faceiro e gracioso. Sentou-se em meio à roda de visitantes e pôs se a olhar nos olhos do Dr. Camilo e do Dr. Alfredo. Estava à espera de um sinal de ambos para que pudesse iniciar. O sinal não vinha. Por certo que nem o Dr. Camilo tampouco o Dr. Alfredo foram avisados por Lucas dos Infernos dessa sua nova mania. Depois de algum tempo de trocas de olhares sem que o sinal fosse enviado, o Dr. Camilo vendo que a plateia já se achava inquieta, perguntou-lhe: 

- E então, Lucas. Não vai começar? Até quando você vai nos deixar aqui sedentos por ouvir suas belas histórias, menino? 

- Não posso senhor, respondeu Lucas levando as duas mãos à cabeça. Só poderei começar quando o senhor e o doutor Alfredo me autorizarem. Para tanto basta que cada um pisque seu olho esquerdo, ao mesmo tempo, simultaneamente. Dito isto, estufou o peitoral pra frente, esticou o longo pescoço e arregalou os dois olhões sobre ambos em busca do impossível que não veio, pois por mais que os Doutores Camilo Prates e Alfredo Sá tentassem, não conseguiam sintonizar suas piscadelas. Quando um fechava o olho para piscar, o outro abria, e vice-versa. Depois de longos minutos neste diapasão coube a Jacinto intervir.

- Compadres, por favor, parem com isso! Os senhores ainda não perceberam que este Lucas dos Infernos está tirando sarro de todos nós? O que ele lhes manda fazer, jamais  conseguirão. Ninguém é capaz de fazer isso. Foi bem mais fácil para mim, apesar de sabermos o quanto me foi difícil, (o Coronel Jacinto, como bom Mineiro, de quando em vez também se dava ao luxo de colocar em prática o seu Mineirismo), emancipar o Brejo das Almas. Este negro não quer contar história coisíssima nenhuma!

Sábias palavras. Não fosse isso e ambos estariam até hoje piscando um para o outro. Claro, se não tivessem, há muito tempo, partido para o Andar de Cima. Antes que Jacinto fechasse a boca encerrando seu comentário, Lucas dos Infernos já soltava sua diabólica e sarcástica gargalhada seguida da frase que ele sempre utilizava nestas ocasiões: “Peguei vocês, outra vez, seus espertos!”

Em um inesperado efeito dominó, todos os presentes, ao mesmo tempo, no mesmo minuto, no mesmo segundo, na mesma fração de milésimo, em tempo real, simultaneamente, sei lá mais o que, caíram no riso.

- Uai, sô, dirão alguns, porque razão todos eles conseguiram rir ao mesmo tempo, fazendo com facilidade o que certamente seria o mais difícil?

- A resposta veio do próprio sábio Lucas dos Infernos ainda no meio da roda de visitantes ilustres. 

- Todos e não somente dois conseguiram fazer o mais difícil por que ninguém lhes disse o que teria que ser feito. É necessário dar ao homem liberdade para pensar e agir, acertar e errar, sem que outros lhes digam o que se deve ou não fazer. É para isso que cada um tem a sua cabeça!

É...

Por vezes, revelar o segredo poderá não ser uma boa atitude. Oculta-lo talvez seja o melhor atalho para se chegar ao êxito. Urge ensinar o ser humano a acertar.

E tenho dito!

Enoque Alves Rodrigues, que vive em São Paulo, é brejeiro de nascimento e convicção. Atua há 40 anos na área de Engenharia. É Escritor, com dois livros a serem lançados, (Liderança Conquistada e Brejo das Almas em Crônicas), Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário